Relação do brasileiro com a seleção não é mais a mesma, pelo menos, desde 2014

Em 1982, quando a seleção de Telê Santana encantou o mundo, mas não levou a Copa, a identificação da torcida com a camisa amarela estava no auge. Com o título de 1994, nos Estados Unidos, chegava ao fim uma fila de vinte e quatro anos, sendo que 70 milhões de brasileiros viram a equipe nacional ser campeã pela primeira vez. Começava, então, uma nova fase de glorias no futebol. Depois do tetra, foram mais duas finais consecutivas e a conquista do penta, em 2002. Para o mundial na Alemanha, quatro anos depois, existia uma grande expectativa em relação ao “quadrado mágico”, formado por Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano. Entretanto, os ares de bagunça na concentração de Weggis foram os regentes do fracasso naquele mundial.

A partir de 2010, na África do Sul, a seleção começou a apresentar carências em posições importantes e faltavam craques para substituir os astros do passado. Cada vez mais, os novos atletas saiam cedo do Brasil com o sonho de trabalhar no exterior. O fenômeno contribuiu para o desconhecimento da torcida em relação aos jogadores, algo que ficaria mais gritante nas convocações da seleção.A partir de 2013, com as manifestações de junho e os protestos contra o mundial no Brasil, teve início um movimento de ampla politização no país e parte da torcida começou a rejeitar a seleção. A massificação das redes sociais e a popularização do smartphone contribuiram para o cenário. A conquista da Copa das Confederações pela equipe nacional, que passou por adversários tradicionais, como Itália, Uruguai e Espanha, trouxe um lampejo de otimismo. Em meio a “Neymar dependência”, um ano depois a história foi diferente. A seleção virou motivo de chacota pela “malfadada” derrota para a Alemanha por 7 a 1, na semifinal, no Mineirão.

Fora dos gramados, vieram o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato e a eleição de Jair Bolsonaro. O grupo político do ex-presidente se apropriou da camisa amarela da seleção. As campanhas pífias nos mundiais de 2018, na Rússia, e 2022, no Qatar, só aumentaram a descrença em relação ao selecionado.

Apesar de todo esse cenário, a convocação de Neymar por Carlo Ancelotti, na semana passada, mostrou que a seleção brasileira ainda atrai as atenções, pelo menos, nas redes sociais, inundadas de intensas discussões. Foi assim, também, quando surgiu a história de que a equipe poderia adotar a camisa vermelha como uniforme reserva. Enfim, o quadro é complexo e creio que falta um debate mais amplo sobre a relação da torcida com o selecionado nacional. Sobre o futuro, a conquista do hexa poderá representar o primeiro passo para que a realidade começe a mudar.

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