O risco de desabastecimento de fosfato bicálcico no mercado brasileiro começou a preocupar produtores rurais, empresas de nutrição animal e entidades ligadas ao agronegócio. O insumo é considerado essencial para a fabricação de suplementos minerais utilizados na alimentação bovina e sua possível escassez pode atingir diretamente a pecuária de corte e leite, especialmente em Mato Grosso, estado que possui o maior rebanho bovino do país.
O alerta foi divulgado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) após levantamento realizado junto a fabricantes de suplementos minerais, empresas do setor e pecuaristas, que já relatam dificuldades de acesso ao produto e sucessivos reajustes nos preços. Há temor de que, nos próximos dias, parte das linhas de sal mineral utilizadas nas propriedades apresente problemas de abastecimento.
A situação é atribuída a uma combinação de fatores que envolve desde limitações na produção nacional até a forte dependência de importações. O cenário internacional também pesa. Restrições de oferta em países fornecedores, impactos logísticos provocados por conflitos externos e a priorização do abastecimento interno em algumas nações têm reduzido a disponibilidade de matérias-primas estratégicas para exportação.
Além da possível escassez, produtores relatam aumento expressivo nos custos de suplementos minerais e concentrados utilizados na engorda do rebanho. A alta pressiona ainda mais uma cadeia que já enfrenta custos elevados de produção, redução de margens e desvalorização do preço pago pela arroba em diferentes regiões do país.
Especialistas do setor lembram que a suplementação mineral é peça fundamental para o desempenho produtivo dos animais. A deficiência desses nutrientes pode comprometer ganho de peso, fertilidade, imunidade, produção de leite e índices reprodutivos, afetando diretamente a eficiência das propriedades rurais.
Em Mato Grosso, onde a pecuária possui peso central na economia, o impacto potencial preocupa produtores. Representantes do setor afirmam que qualquer instabilidade no fornecimento de sal mineral tende a atingir milhares de propriedades simultaneamente, ampliando riscos produtivos e sanitários.
O presidente da Famato, Vilmondes Tomain, afirma que o cenário exige atenção imediata. “Estamos diante de um alerta importante para a pecuária e para a agricultura. O sal mineral é indispensável para o desempenho produtivo, reprodutivo e sanitário do rebanho, assim como os insumos fosfatados são estratégicos para a produção agrícola. Quando esses
ficam caros ou, pior, começam a faltar, o impacto chega diretamente ao produtor rural, que já enfrenta aumento de custos e redução da margem da atividade, e pode chegar às prateleiras dos supermercados”, destaca.
A preocupação se soma a outro problema recente enfrentado pelos pecuaristas: a dificuldade de acesso a vacinas contra clostridioses. Para a entidade, a combinação entre desafios sanitários e aumento nos custos de suplementação mineral eleva o nível de incerteza no campo e acende um sinal de alerta para toda a cadeia produtiva da carne e do leite.
O vice-presidente da Famato e coordenador da Comissão de Pecuária de Corte da entidade, Amarildo Merotti, avalia que a situação se tornou ainda mais delicada diante do cenário econômico enfrentado pelos produtores.
“Mato Grosso tem o maior rebanho bovino do Brasil. Qualquer instabilidade no fornecimento de sal mineral atinge milhares de produtores. O pecuarista está sendo pressionado pela alta dos insumos, pelo risco de falta de produto, pela preocupação com vacinas contra clostridioses e pela queda nos preços pagos pela indústria. Essa combinação preocupa muito”, afirma.
Dependência externa reacende debate sobre fertilizantes e insumos estratégicos
O episódio também reforça uma discussão antiga dentro do agronegócio brasileiro: a elevada dependência de insumos importados. Embora o país esteja entre os maiores produtores mundiais de alimentos, parte significativa das matérias-primas minerais utilizadas tanto na agricultura quanto na pecuária ainda vem do exterior.
Na avaliação da Famato, a vulnerabilidade deixa o setor exposto a oscilações geopolíticas, crises logísticas e restrições comerciais internacionais, afetando diretamente a competitividade da produção agropecuária.
Entre as medidas defendidas pela entidade estão a redução temporária ou isenção das tarifas de importação do fosfato bicálcico e do enxofre, redução tributária sobre sal branco e ureia destinados à nutrição animal, além de medidas de desburocratização alfandegária e ampliação das negociações com países fornecedores, como a Bolívia.
A federação também defende maior efetividade na implementação do Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050, criado para reduzir a dependência externa brasileira em insumos considerados estratégicos para a produção de alimentos.
“O Brasil não pode depender quase exclusivamente do mercado externo para garantir insumos essenciais à produção de alimentos. O Plano Nacional de Fertilizantes precisa avançar com mais efetividade. Garantir fertilizantes e insumos minerais acessíveis é uma questão de soberania, segurança alimentar e competitividade para o produtor rural”, finaliza Vilmondes Tomain.


