
Durante os dois anos e meio em que morou em Portugal, Luciano tinha um jeito curioso de matar a saudade de Mato Grosso: gravou o canto dos passarinhos da chácara da família, em Nossa Senhora do Livramento, e usava o áudio como despertador.
Na Europa, a vida ia bem. Pintor da construção civil há mais de 30 anos, ele tinha trabalho garantido e os dois filhos por perto. A virada veio depois de um acidente de trabalho em que sofreu quatro fraturas na bacia, passou cerca de 20 dias em cadeira de rodas e precisou de muletas na recuperação. O episódio fez o casal repensar o futuro.
Enquanto isso, um incêndio de origem desconhecida havia atingido a propriedade em Mato Grosso e destruído parte do pomar cultivado por anos. Mesmo assim, Luciano e a esposa, Clarice, decidiram voltar, deixando os filhos em Portugal para recomeçar na terra danificada.
Eles começaram limpando a área queimada e, com as economias trazidas da Europa, construíram cercas e estruturas para vacas leiteiras. Quando o dinheiro começou a acabar, a criação de aves ganhou força com R$ 10,6 mil em recursos não reembolsáveis do Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FUNDAAF) e de um programa federal de fomento rural ligado ao MDS e à Empaer. O valor foi usado em materiais, ração, medicamentos e duas chocadeiras.
Cinco anos depois do retorno, os 13 hectares abrigam vacas leiteiras, aves, porcos, peixes e ovelhas, além de plantações de banana, mandioca e cana-de-açúcar. O casal produz o próprio queijo e doce de leite, e Luciano estima ter criado entre 420 e 450 aves só em 2026.
A saudade dos filhos continua, mas a família que vive em Portugal planeja visitar a chácara no fim do ano. “Aqui é o nosso paraíso. Tranquilidade”, resume Clarice.


