Abílio critica exploração da fé e ‘oportunismo político’ em polêmicas sobre Nossa Senhora Aparecida

O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), manifestou oposição à forma como a religião tem sido instrumentalizada no cenário político nacional, mesmo que ele próprio utilize sua fé recorrentemente em campanhas e projetos, em meio ao acirrado debate eleitoral que envolve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Para o chefe do Executivo municipal, a aproximação repentina de figuras da esquerda com símbolos e pautas religiosas revela um comportamento estritamente oportunista diante do pleito

“Eleição faz milagre. Faz a Janja [primeira-dama do Brasil], que é da religião da Umbanda, vestir a camisa do Flamengo e colocar o símbolo de Nossa Senhora no peito. Faz a Janja reunir-se com um grupo de evangélicos, falando que são evangélicos de esquerda. E faz o PT defender, entre aspas, oportunamente, um posicionamento religioso”, declarou o gestor em coletiva na terça-feira (29).

Abílio também pontuou que, historicamente, matrizes do pensamento de esquerda enxergam a religião sob óticas críticas, como o conceito de que seria o “ópio do povo” presente nos escritos do filósofo Karl Marx, contrastando com a atual postura adotada pelo governo. Contudo, a ideia central não era atacar os crentes ou impor o fim da fé à força, mas apontar que, enquanto as condições reais de opressão social não mudarem, as pessoas continuarão buscando na religião uma promessa de felicidade imaginária ou alívio para suportar a dureza da realidade, independentemente de qual religião estiver em foco.

Ainda, o prefeito saiu em defesa de segmentos evangélicos e criticou posturas governamentais em relação a templos específicos, direcionando que pessoas evangélicas seriam perseguidas no país.

“O Lula acabou de atacar, veementemente, em dois, três discursos, a igreja Lagoinha, acusando de forma caluniosa e difamatória a igreja Lagoinha, da qual tem meu apreço e meu respeito. A igreja Lagoinha é uma igreja séria, com posicionamento sério, com respeito. E se ele ataca a igreja Lagoinha hoje, de maneira a quase destruir a imagem da igreja, qual é a próxima igreja em que ele vai se posicionar?”, questionou, afirmando que tal conduta é incompatível com a envergadura institucional de um presidente da República.

A Igreja Lagoinha passou a ser citada pela relação de seus líderes com o ex-banqueiro preso, Daniel Vorcaro.

Entenda como surgiu o debate

Esse assunto recentemente ganhou força nacional e internacional após a circulação de boatos nas redes sociais associando o nome do presidenciável Flávio Bolsonaro a um projeto legislativo antigo e arquivado que pretendia alterar o título de Nossa Senhora Aparecida de padroeira oficial do Brasil. O projeto existe, mas é do ex-deputado Victório Galli (PL).

A polêmica também coincidiu com o episódio em que uma imagem danificada da santa foi encontrada na Cruz do Chilão, localizada no bairro Santa Helena, em Cuiabá. Apesar de não ser católico, o prefeito rebateu o que os próprios fiéis locais denunciaram como um ato de vandalismo, minimizando o ocorrido.

“O que houve é uma estátua que estava danificada e um fiel levou essa estátua danificada até os pés daquela cruz […] Não foi isso que ocorreu. O que ocorreu naquela situação foi que uma pessoa que tinha uma imagem danificada, em ato de fé, levou essa imagem até os pés da cruz e fez um ato ali no local de fé”, argumentou.

Para o prefeito, as tentativas de vincular o campo conservador a ataques contra a fé católica configuram campanhas de desinformação respaldadas “de forma atípica” por instâncias do Judiciário. Ele argumenta que sua relação com a comunidade católica e com entidades religiosas locais é sólida e contínua ao longo dos anos, independentemente de calendários eleitorais.

“Eu acredito que eu sou, entre os prefeitos de Cuiabá, o que mais ajuda as atividades e eventos católicos. E sou evangélico e um dos que mais ajuda. Sempre ajudei, desde quando era deputado”, afirmou, destacando destinações de emendas parlamentares e parcerias institucionais mantidas desde o período em que atuava na Câmara Federal.

O prefeito concluiu lamentando que o pleito presidencial seja pautado por controvérsias dessa natureza, enquanto o cenário político e jurídico do país vivencia embates institucionais complexos envolvendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), culminando em uma corrida acirrada às vésperas da votação de 4 de outubro, que foca na exposição dos candidatos e em polêmicas.

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