
Sorriso, Lucas do Rio Verde, Tapurah e Primavera do Leste estão entre os municípios brasileiros destacados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como prioritários para o monitoramento de fontes de poluição das águas associadas à agropecuária. A pesquisa considera tanto a presença dessas fontes quanto fatores de vulnerabilidade relacionados à disponibilidade de água e à erosão do solo.
O levantamento reúne indicadores nacionais para orientar governos e órgãos ambientais sobre onde concentrar esforços de acompanhamento e prevenção. A presença dos municípios na relação não significa, por si só, que a água fornecida aos moradores esteja contaminada: o trabalho identifica pressões potenciais sobre os recursos hídricos e áreas que precisam de atenção.
Os resultados constam no Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento nº 291 da Embrapa Solos, datado de junho de 2026, intitulado “Mapeamento e priorização de municípios brasileiros quanto às fontes de poluição difusa da água advindas da agropecuária e vulnerabilidade às mudanças climáticas”.
Fertilizantes, criação de animais e erosão entram na análise
Para elaborar o mapeamento, os pesquisadores utilizaram bases de dados nacionais e ferramentas de análise geográfica. Foram considerados indicadores ligados à entrega de fertilizantes, aos rebanhos, à aplicação de resíduos da cana-de-açúcar no solo, ao balanço entre demanda e disponibilidade hídrica e à suscetibilidade dos solos à erosão provocada pela água.
O foco principal está no fósforo e no nitrogênio, nutrientes utilizados na produção agrícola e também presentes em resíduos da criação de animais. Quando chegam em excesso aos cursos d’água, podem acelerar a eutrofização, processo de enriquecimento da água por nutrientes que compromete sua qualidade e seus diferentes usos.
A chamada poluição difusa ocorre quando os materiais alcançam rios, córregos e reservatórios a partir de diversas áreas, sem um único ponto de lançamento. Entre os caminhos estão o escoamento das chuvas sobre o terreno e o deslocamento de substâncias pela água que infiltra no solo.
Chuvas intensas ampliam preocupação
O estudo destaca que eventos extremos de chuva podem aumentar o transporte de sedimentos e nutrientes para os rios, especialmente em bacias onde a vegetação original foi muito reduzida e os processos erosivos estão disseminados.
As mudanças nos padrões de precipitação também interferem no deslocamento e na diluição desses materiais. Por isso, os pesquisadores combinaram os indicadores das fontes agropecuárias com informações sobre disponibilidade hídrica e características dos solos.
Nessa análise conjunta, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste e Tapurah aparecem entre os exemplos de municípios com maior prioridade para acompanhamento. A relação inclui ainda cidades de outros estados, como Rio Verde e Jataí, em Goiás, e Dourados e Rio Brilhante, em Mato Grosso do Sul.
Pesquisa não substitui análise da água
O levantamento trabalha com indicadores e bases secundárias, e não apresenta um diagnóstico de potabilidade da água distribuída em cada município. Também não estabelece, individualmente, a responsabilidade de propriedades rurais por eventual poluição.
Os próprios autores apontam limites da pesquisa. O manejo agropecuário adotado nas propriedades não foi avaliado, embora seja considerado importante para compreender o risco. O estudo também recomenda incorporar, em análises futuras, informações mais detalhadas sobre relevo, comportamento da água no solo e áreas de recarga de aquíferos.
Outra necessidade apontada é avaliar a capacidade das instituições de realizar o monitoramento, incluindo laboratórios, transporte, profissionais e recursos financeiros.
Embrapa recomenda ações de prevenção
Nas conclusões, os pesquisadores defendem que governos estaduais e municipais das regiões de elevada produção agropecuária invistam no uso mais eficiente dos fertilizantes e incentivem o manejo adequado do solo, da água e dos resíduos da pecuária.
A recomendação também é ampliar o monitoramento de parâmetros capazes de indicar a chegada de fósforo e nitrogênio aos corpos d’água. O objetivo é apoiar medidas preventivas e políticas públicas que protejam os mananciais utilizados pela população e pela própria produção rural.
O trabalho é assinado pelos pesquisadores Rachel Bardy Prado, Alexandre Ortega Gonçalves, Pedro Gerhard, Robson Rolland Monticelli Barizon, Gustavo Bayma Siqueira da Silva e Sandra Furlan Nogueira, vinculados à Embrapa Meio Ambiente e à Embrapa Solos.

