O avanço das apostas online no Brasil começa a revelar uma face cada vez mais preocupante: a dependência em jogos de azar e os impactos financeiros, familiares e emocionais provocados pela compulsão. Dados divulgados pelo Ministério da Fazenda mostram que 1,2 milhão de pessoas já solicitaram voluntariamente o bloqueio do próprio CPF para não participar de apostas online.
O número faz parte de um universo ainda maior de CPFs impedidos de acessar plataformas de apostas. Segundo dados divulgados pelo governo federal em agosto, cerca de 5 milhões de CPFs estavam bloqueados, incluindo pessoas que solicitaram a autoexclusão e beneficiários de programas sociais que foram impedidos de apostar.
A situação reforça o alerta de especialistas e autoridades de saúde sobre os riscos associados ao chamado transtorno do jogo, popularmente conhecido como ludopatia. O problema pode provocar endividamento, perda de patrimônio, conflitos familiares, isolamento social e sofrimento emocional.
Relatos revelam o tamanho do problema
A reportagem do Alvorada MT conversou nesta semana com duas pessoas que enfrentaram problemas relacionados às apostas. Por questões de privacidade, os nomes não serão divulgados.
Um dos entrevistados relata ter perdido mais de R$ 1 milhão em apostas, principalmente no conhecido “Jogo do Tigrinho”.
Segundo ele, antes de desenvolver o comportamento compulsivo, mantinha uma vida financeira estável, tinha casa, carro novo e investimentos que proporcionavam tranquilidade.
Com o avanço do vício, porém, praticamente todo o patrimônio foi consumido.
As perdas financeiras, segundo o entrevistado, foram acompanhadas por consequências ainda mais dolorosas na vida pessoal. O casamento chegou ao fim, amizades foram perdidas e, em momentos de desespero, ele afirma que chegou a pensar em tirar a própria vida.
O relato mostra que o problema não se resume ao dinheiro perdido nas plataformas. A compulsão pode atingir diferentes áreas da vida e transformar uma atividade inicialmente vista como entretenimento em uma situação de dependência.
“A gente nunca ganha”
O segundo entrevistado também enfrentou grandes prejuízos, mas conseguiu interromper o ciclo antes que as perdas fossem ainda maiores. O momento decisivo aconteceu quando percebeu que estava pedindo dinheiro emprestado a parentes e amigos para continuar jogando.
Foi então que decidiu buscar ajuda e conheceu a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Governo Federal.
“A sensação é indescritível. Numa jogada você ganha mil, dois mil, até cinco mil reais, mas chega no final do dia você está sem dinheiro na conta. A gente nunca ganha! O jogo foi feito para você perder”, relatou.
Segundo ele, o alerta de um amigo foi fundamental para que tomasse a decisão de interromper o acesso às apostas.
“Eu agradeço muito a um amigo que me alertou do problema e me apresentou a plataforma de autoexclusão. Hoje, nem que eu queira, eu não consigo jogar”, afirmou.
Como funciona a autoexclusão
Criada pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, a plataforma permite que o próprio cidadão solicite o bloqueio do acesso a todas as casas de apostas autorizadas pelo governo federal de uma só vez.
O usuário precisa acessar o serviço utilizando uma conta Gov.br de nível prata ou ouro e escolher se deseja permanecer bloqueado por período determinado ou indeterminado.
Após a solicitação, o sistema bloqueia as contas existentes nas plataformas autorizadas, impede novos cadastros utilizando aquele CPF e também interrompe o recebimento de publicidade direcionada das empresas de apostas.
O serviço é gratuito e, segundo o governo, a implementação do bloqueio pelas casas de apostas pode levar até 72 horas.
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O próprio Ministério da Saúde passou a tratar os riscos associados às apostas online dentro das ações de saúde mental. Em julho, a pasta lançou uma campanha com orientações sobre os impactos das apostas e sobre como buscar atendimento na rede pública.
A orientação é que pessoas que percebam perda de controle procurem inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Em situações que necessitem de acompanhamento especializado, o paciente pode ser encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
A plataforma de autoexclusão também reúne informações sobre jogo responsável, saúde mental e educação financeira.
Um alerta que começa antes da falência
Os dois depoimentos ouvidos pela reportagem apresentam trajetórias diferentes, mas têm um ponto em comum: o jogo deixou de ser uma diversão e passou a controlar decisões financeiras e pessoais.
No primeiro caso, o problema avançou até consumir patrimônio, relacionamentos e provocar sofrimento emocional extremo. No segundo, o reconhecimento dos primeiros sinais e a decisão de buscar ajuda permitiram interromper o ciclo.
Entre os sinais de alerta estão gastar mais dinheiro do que poderia, tentar recuperar perdas apostando novamente, esconder apostas de familiares, contrair dívidas para jogar, pedir dinheiro emprestado e sentir ansiedade ou irritação quando não consegue apostar.
O crescimento da autoexclusão mostra que milhares de brasileiros já perceberam que não conseguem enfrentar o problema apenas com força de vontade. Para essas pessoas, bloquear o acesso pode representar o primeiro passo para recuperar o controle da própria vida.
Se a aposta deixou de ser diversão e passou a causar prejuízos financeiros, familiares ou emocionais, o problema merece ser tratado como uma questão de saúde e não como falta de disciplina.


