
Um avanço científico brasileiro pode mudar a forma como a origem da carne bovina é verificada e reforçar o combate a fraudes ambientais no agronegócio. Pesquisadores do projeto RastreIA estão desenvolvendo métodos capazes de identificar de qual região veio um animal a partir da composição química da carne, criando uma espécie de “impressão digital” do produto.
A iniciativa reúne cientistas da USP, por meio do Cena e da Esalq, além do Ipen e da Embrapa, com apoio da Fapesp, e aposta em análises químicas, técnicas nucleares e inteligência artificial para ampliar a rastreabilidade da cadeia produtiva bovina.
Tecnologia pode revelar origem da carne por composição química
A pesquisa parte de um princípio simples: a composição química da carne carrega marcas do ambiente onde o animal foi criado, como solo, água e alimentação.
Esses elementos funcionam como rastros naturais que podem indicar a procedência do produto.
Segundo os pesquisadores, isso pode permitir confirmar se a origem declarada pelo produtor corresponde à origem real da carne comercializada, trazendo mais transparência ao mercado e fortalecendo mecanismos de controle
Método pode ajudar a enfrentar fraudes e desmatamento ilegal
Além de verificar procedência comercial, a tecnologia é vista como ferramenta estratégica para combater crimes ambientais ligados à cadeia pecuária, incluindo casos associados ao desmatamento e à degradação de áreas florestais.
A proposta é dificultar práticas em que produtos de regiões irregulares possam ser vendidos como se viessem de áreas legalizadas ou de maior valor comercial.
Na prática, isso pode reforçar auditorias, certificações e controles voltados tanto ao mercado interno quanto às exportações.
“Assinatura química” diferencia carne do Cerrado, Amazônia e Sul
Para construir esse sistema, amostras de carne bovina de várias regiões do país passam por um processo de calcinação em temperaturas superiores a 500°C, concentrando elementos químicos presentes no material.
Os pesquisadores analisam correlações entre esses elementos para formar o que chamam de assinatura química regional.
A expectativa é que esse mapeamento permita diferenciar, por exemplo, carnes produzidas no Cerrado, na Amazônia ou no Sul do Brasil.
Com isso, amostras de origem desconhecida poderão ser comparadas a perfis já catalogados.
Inteligência artificial amplia precisão das análises
Outro diferencial do estudo é o uso de inteligência artificial para cruzar dados químicos e isotópicos, aumentando a capacidade de identificar padrões e validar resultados.
Essa integração tecnológica pode elevar a precisão do rastreamento e transformar a metodologia em referência para outras cadeias do agronegócio.
Além da carne bovina, o projeto também estuda aplicações semelhantes para soja e madeira.
Pesquisa pode impactar mercado e confiança do consumidor
Especialistas veem potencial para que a tecnologia fortaleça a confiança do consumidor e amplie exigências de rastreabilidade, tema cada vez mais sensível em mercados internacionais.
Com pressão crescente por cadeias produtivas mais transparentes, ferramentas científicas como essa ganham relevância estratégica para o Brasil.
Se consolidada, a metodologia poderá representar um novo patamar de controle sobre origem, sustentabilidade e autenticidade de commodities brasileiras.


